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20 anos sem Sinatra: a Conexão Brasil via Jobim e Quartin

Considerado o maior intérprete da canção popular no século 20, Frank Sinatra, “The Voice”, partiu há exatos 20 anos, quando, em Los Angeles, na Califórnia, foi vitimado por uma parada cardíaca fulminante, aos 82 anos.

Além dos altos índices de vendagens locais, Sinatra nutriu verdadeira paixão pela música do Brasil. Em sua primeira passagem por aqui, em 1980, o cantor estabeleceu um novo recorde de público no Guiness Book ao levar para o Maracanã, em 26 de janeiro, mais de 175 mil fãs.

Seu interesse por nossa música, no entanto, havia começado muito antes. Com a explosão mundial da bossa nova, deflagrada a partir do lançamento do álbum Getz/Gilberto, que, em 1964, reuniu o saxofonista tenor Stan Getz e o cantor e violonista João Gilberto, Sinatra foi um dos milhões de norte-americanos arrebatados com as sutilezas rítmicas e harmônicas do novo gênero disseminado com o sucesso de Garota de Ipanema e Corcovado, ambas vertidas para o inglês e consagradas na voz sublime de Astrud Gilberto, então casada com João.

Não por acaso, três anos mais tarde, Sinatra decidiu dividir um trabalho com o compositor e maestro Tom Jobim. Lançado em 1967 pelo selo Reprise, gravadora criada pelo crooner em 1960, o LP Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim conquistou a façanha de ser o segundo álbum mais vendido nos Estados Unidos naquele ano. O primeiro? Não menos que um certo Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band dos Beatles.

O convite intercontinental feito por Sinatra beira o mitológico. A fascinante história se passa em um dos bunkers boêmios das estadias cariocas de Jobim, o Bar Veloso. Reza a lenda, o maestro carioca estava reunido com amigos quando Seu Armênio, dono do estabelecimento, interrompeu a conversa entre eles para anunciar que, do outro lado da linha telefônica instalada no bar, uma chamada de Ray Gilbert, produtor de Frank Sinatra, que pretendia fazer um convite ao brasileiro, o aguardava direto dos Estados Unidos. Era dezembro de 1966.

Acordo fechado, as gravações do antológico álbum tiveram início em 30 de janeiro de 1967, cinco dias depois de, solitário em um quarto do hotel Saint-Marquis, em Los Angeles, Jobim completar 40 anos de idade.

Por exigência do brasileiro, a seção rítmica teve na linha de frente um dos maiores expoentes da batida bossa nova na bateria, o carioca Dom Um Romão, que percorria os EUA como integrante do Brasil’ 66 de Sergio Mendes e também colaborava com Astrud, então radicada nos EUA e fazendo grande sucesso como artista da Verve Records.

No livro Chega de Saudade, Ruy Castro relembra que, diferentemente de Tom, extremamente metódico nas preliminares das gravações, Sinatra não era adepto de ensaios regulares, fato que criou um clima tenso entre eles. A percepção de mergulho em um universo alheio ao seu modus operandi também pode ser notada na emblemática frase expressa por Sinatra logo após a gravação de Dindi, uma das joias de Tom: “A última vez em que eu cantei tão baixo foi quando tive laringite”, teria dito The Voice.

Veja as releituras de Corcovado e Garota de Ipanema

O canto comedido de Sinatra ao longo do LP, absolutamente inusitado para a usual potência vocal de seus registros, atesta a assimilação e o respeito do artista às intenções estéticas da bossa.

Com arranjos do maestro Claus Ogerman, que já havia trabalhado com Tom no álbum The Composer of Desafinado Plays (Verve, 1963), Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim apresenta dez canções, sete delas de autoria de Jobim com parceiros como Newton Mendonça e Vinicius de Moraes (Consolação, Corcovado, O Amor em Paz, Insensatez, Garota de Ipanema, Inútil Paisagem  e Dindi – claro, todas elas vertidas para o inglês).

Incluídos no repertório a pedido de Sinatra, que assim pretendia evitar que o álbum tivesse uma identidade excessivamente latina, três temas tem o DNA da canção norte-americana. São elas: I Concentrate On You, de Cole Porter, e Change Partners, de Irving Berlin, ambas tornadas célebres em registros de Fred Astaire; e Baubles, Bangles and Beads, de George Forrest e Robert Wright, canção que integrou o musical Kimset, lançado na Broadway pela dupla em 1953.

No parágrafo final de Chega de Saudade, Ruy Castro recorda a manhã especial que sucedeu o primeiro dia de registros deste álbum divisor, que amplificou ainda mais o fascínio despertado pela música brasileira ao redor do mundo.

“Na manhã daquele primeiro dia de gravação, muitos amigos haviam chegado do Brasil com Aloysio (o produtor Aloysio de Oliveira, dono da gravadora Elenco): Oscar Castro Neves, Marcos Valle e sua mulher, Ana Maria, e as meninas do Quarteto em Cy. Tom trouxera uma fita cassete do estúdio, contendo as primeiras faixas gravadas: Dindi, Corcovado, Inútil Paisagem. Todos ficaram deslumbrados. Era ouvir para crer – e ele estava felicíssimo. A vitória não era só sua, mas de todas a Bossa Nova. As mesmas exclamações se repetiram no Rio, poucos dias depois, quando a fita completa, com os vocais de Tom com Sinatra em Garota de Ipanema e Insensatez, mais Amor e Paz e Meditação, chegou misteriosamente às mãos de Roberto Quartin, antes de todo mundo. Quartin conta que, durante aquele Verão, amigos e conhecidos saíam da praia molhados e com restos de areia, e invadiam o seu estúdio em Ipanema para ouvir a fita – concebida, na verdade, ‘milhões de sonhos atrás’.

Roberto Quartin, guardião do espólio de Sinatra

Roberto Quartin e Tom Jobim. Foto: Reprodução / Instituto Antonio Carlos Jobim

Em 1966, o produtor Roberto Quartin, dono da gravadora Forma, que, entre outros títulos da mesma envergadura lançou os clássicos Coisas, de Moacir Santos, e Os Afro-Sambas de Vinicius de Moraes e Baden Powell (1967), tornou-se grande amigo de Frank Sinatra depois de conhecê-lo em uma festa em Beverly Hills. Pesquisador incansável da obra do “Ol’ Blue Eyes”, o brasileiro assinou a produção de discos lançados pela Warner no Brasil, como Sinatra & Friends.

Quartin também esteve nos bastidores das gravações de Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim. Tempos depois, o amigo Frank deu carta branca para que ele esmiuçasse os arquivos da Columbia e da Capitol, gravadoras que o consagraram, em busca de registros raros e inéditos. Em 1979, reunida na caixa Lonely at The Top, composta de três LPs, uma seleção de preciosidades encontradas por Quartin e autorizada por Sinatra foi lançada no Brasil por meio de um novo selo local, Artanis (o nome de Sinatra ao contrário), antecipando o show histórico no Maracanã.

Morto em 2004, Quartin doou todo o material inédito que possuía de Frank Sinatra aos herdeiros do cantor para que esse material se tornasse acessível aos fãs por meio do acervo do Museu Sinatra, sediado em Hoboken, cidade natal do cantor, no estado de Nova Jersey.