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Os 30 anos de 'Hip-Hop Cultura de Rua', segundo DJ Hum

Em passagem pelo Estúdio Showlivre para apresentar seu mais recente trabalho autoral – um álbum registrado em CD e LP com a banda Expresso do Groove (ouça), combo afiadíssimo no trato de gêneros dançantes como jazz-funk, samba-rock e bossa-jazz –, Humberto Martins Arruda, mais conhecido como DJ Hum, foi convidado pela reportagem do showlivre.com a fazer um balanço dos 30 anos da coletânea Hip Hop Cultura de Rua.

Considerado o primeiro álbum de rap genuinamente brasileiro, a compilação marcou o início de carreira da dupla Thaíde & DJ Hum. Um dos desbravadores locais da arte de disparar scratches, mixar com toca-discos e produzir “samples” analógicos por meio de fitas de rolo, DJ Hum foi, ao lado de Thaíde, ponta de lança da coletânea, que também reuniu o pioneiro MC Jack e as bandas O Credo e Código 13.

A liderança natural de Thaíde e DJ Hum no LP foi confirmada com o sucesso radiofônico de Corpo Fechado. Além dela, espécie de “carta de intenções” de Thaíde, a compilação ainda tem o mérito de registrar a contundente Homens da Lei (como a primeira, escrita em parceria com o amigo Marcos Telésforo), um petardo que tem início com a insolente estrofe “cuidado povo de São Paulo, de Osasco e ABC, a polícia paulistana chegou para proteger / policial é marginal, e é essa a Lei do Cão: a polícia mata o povo e não vai para a prisão”.

Gênese do Hip-Hop BR

A reputação de marco zero atribuída ao álbum Hip-Hop Cultura de Rua é, no entanto, ponderada por muitos fãs de rap obcecados pela reconstituição da história do gênero no Brasil. Afinal, quando chegou às lojas o disco do Paralelo, selo pertencente à gravadora Estúdio Eldorado, experiências embrionárias lançadas em compactos e em outras coletâneas –  como o EP Ousadia do Rap, de 1987, do selo Kaskata’s Records – já vinham sendo colocadas em prática por aqui.

Também em 1988, o grupo Região Abissal, um septeto formado por amigos da Bela Vista, bairro da região central da capital paulista, lançou aquele que é considerado o primeiro registro autoral na íntegra de um grupo de rap, o álbum Hip Rap Hop.

O saudoso Jair Rodrigues costumava brincar que “inventou o rap”, por conta de sua gravação de Deixa Isso Pra Lá. Pela métrica das rimas e a cadência quase falada, a associação até faz sentido, mas o que salta aos ouvidos no canto gingado da faixa de enorme sucesso é o apelo irresistível do tradicional coco de embolada.

Nunca é demais lembrar também que em 1964, ano do lançamento da música interpretada com grande êxito por Jair e composta pela dupla Edson Menezes e Alberto Paz, mundialmente o rap nem sequer existia.

Kool DJ Herc, o patriarca

Quase dez anos depois, em 11 de agosto de 1973, durante uma festa na altura do número 1520 da avenida Sedwick, no Bronx, em Nova York, ao apresentar uma nova técnica de mixagem de batidas da soul music e do funk para estender as partes mais dançantes, os chamados breakbeats, Kool Herc, um DJ norte-americano de ascendência jamaicana, deu início ao cruzamento que culminou no que hoje é reconhecido como rap.

Além dos breakbeats extraídos por Herc de um par de toca-discos interligados em um precário mixer, seu amigo Coke La Rock também improvisou rimas para estimular o público a continuar dançando, cumprindo assim o papel de mestre de cerimônia, o chamado MC.

Voltando ao Brasil, mas, afinal, qual foi o primeiro rap gravado no País? Com sua junção de beats e rimas, arranjo de Lincoln Olivetti e letra de Luiz Carlos Miele e do humorista Arnaud Rodrigues, Melô do Tagarela é considerado o primeiro rap do Brasil. A música, cantada por Miéle e lançada em compacto, pela RCA, em 1980, teve como matriz harmônica e rítmica a base de Rapper’s Delight, o clássico do Sugarhill Gang.

Ouça Melô do Tagarela, de Miele e Arnaud Rodrigues

“Acidental”, esse primeiro rap abriu caminho para artistas pioneiros como Black Juniors, Buffalo GirlsVilla Box, Electric Boogies, Pepeu e Mister Théo. Pouco documentada pela grande indústria, as gravações desses primeiros MCs e DJs tinham como principais produtos fonográficos compactos e compilações de gravadoras independentes, como o já citado selo independente paulistano Kaskata’s.

Situação que só teve fim em 1988, com o lançamento do álbum celebrado nesta reportagem por um de seus protagonistas. Nos depoimentos a seguir, divididos por temas, DJ Hum fala sobre os bastidores das gravações do LP e avalia a influência do álbum para o rap brasileiro. Claro, também pedimos que ele comentasse o teor das letras contundentes cantadas por Thaíde – os dois raps foram produzidos por Nasi e André Jung, respectivamente vocalista e baterista da banda de rock Ira! Com a palavra, DJ Hum.

Bastidores do álbum Hip-Hop Cultura de Rua

Eu frequentava a São Bento, nosso point de encontro, e alguns músicos passavam pra ver toda aquela agitação, os b-boys, os DJs, as equipes de dança, as crews. Uma vez o pessoal do Fábrica Fagus foi lá – Théo Werneck, Márcio Werneck e Kuru – e eles levaram o Skowa, que depois convidou o Nasi e o André. Eles acharam interessante o movimento que tinha ali e começou a rolar uma história de fazer uma produção, um disco. A gente não tinha esse caminho na época, usava toca-disco de madeirinha, não tinha sample. Simultaneamente o Gilson, um empresário de rock n’ roll dos anos 1980 (Gilson Fernandes de Souza), que conhecia o Vagner, do Estúdio Eldorado (o produtor Vagner Garcia), propôs para ele, junto com o Who, do grupo O Credo, de fazer um disco de hip-hop. Alguns discos saíram com sons instrumentais, outros com sons de equipe de baile, mas nada tão focado na cultura hip-hop, com seus elementos, sua identidade visual, vocal. No Hip Hop Cultura de Rua, conseguimos ter universos distintos, porém unidos pra divulgar o que viria a ser inscrito mais tarde como um dos primeiros registros de rap no Brasil – ou o primeiro.

Ouça a íntegra do álbum Hip-Hop Cultura de Rua

Fitas de rolo x Samples & Drum machines

Tem uma antiga técnica de DJs que surge no final dos anos 1960, que é cortar na gilete e emendar as fitas (veja o DJ Iraí Campos explicando a técnica). Por esses equipamentos serem muito caros (os samplers digitais), a gente fazia esses loops para poder cantar as bases. Eu tinha coleções, cabides de vários tipos de fitas de rolo catalogadas. Você fazia um loop, pegava um lápis, a fita ficava girando e, ali, enquanto ficava tocando aquilo por uns 40 minutos, a gente ia compondo e escrevendo as letras. Então, você tirava um trecho do disco e gravava no rolo. Alguns samples eram um ou dois segundos, só efeito e beat. Depois, a tecnologia veio, mas ainda era cara. Só no meio dos anos 1990 é que começou a ficar mais fácil o acesso.

Irmandade

A gente frequentava a São Bento. Tinha quatro gangues, que a gente chama de crew (Back Spin, Funk Cia., Nação Zulu , Crazy Crew e Street Warrior's). No hip-hop, a gente criou esse conceito de ter o dj, ter o grafiteiro, ter o MC e ter a crew de dança. A gente fazia aquilo que a gente aprendeu com a cultura da Universal Zulu Nation (movimento mundial de difusão da cultura Hip-Hop criada por Afrika Bambaataa). Começava a escrever sobre protesto, sobre orientação, crítica social, dança, alegria, valorização à vida. Tínhamos músicas com esses temas. Melhorar de vida. Positivismo. Quando alguém ia fazer um show todo mundo estava lá para fortalecer. Só depois do estouro do Cultura de Rua, nos anos 1990, é que cada um começa a ir pro seu lado, porque começa a ter agenda de show, e os artistas, principalmente os de rap, djs e mcs, deixam de frequentar a São Bento e começam a fazer suas turnês. A partir daí a São Bento vira um reduto mais relacionado à dança.

A retaliação dos “homens da lei”

A gente teve alguns shows parados, porque os seguranças eram policiais e não entendiam a ideia. Principalmente porque tinha a frase “os homens da lei são todos porcos”. Era uma forma de rebeldia. “Os homens da lei”, muitos policiais identificavam que era com eles, mas a letra em si não fala só de policiais, “são homens da lei”, fala do sistema, do lado opressor, fala de quem está ali fazendo as regras para o povo, a sociedade viver e se locomover.  O rap que a gente fazia era um pouco mais simples e disfarçado. Era basicamente dois ou três anos depois da ditadura e você tinha receio, tinha medo. Historicamente não dava para ser tão profundo como quatro ou cinco anos depois. Nos anos 1990, as letras já eram diferentes, eram muito mais impactantes.

Realidade imutável, 30 anos depois

A realidade não mudou, mas as ações mudaram... E mudaram pra pior. Naquela letra, a gente estava dizendo “trabalhe bastante, estude bastante para viver bem no futuro”. A realidade de hoje é “viva bem o agora, não se preocupe com o agora, porque algo pode acontecer para você muito rápido e você está antecipando a sua jornada aqui no planeta”. Naquela época, nós não tínhamos um terço da escala criminal de hoje. Mas havia uma política de eliminação, pela falta de conhecimento, pela ignorância, pelo preconceito, pela discriminação. Esse é o primeiro fator. O segundo fator relacionado à época que segue até hoje, lógico, é a discriminação e o preconceito racial. Eles foram muito explícitos no passado, o que todos sabiam, e hoje ele é camuflado. Você tinha medo de passear na rua, tinha vergonha de ir em bairro chique, em bairro nobre. Quando me tornei DJ profissional havia uma linha imaginária: música de branco para branco / música de negro para negro. Aqui estão os bairros dos mais favorecidos na sociedade e aqui estão os bairros de classe média baixa, a periferia. Era ali que a gente circulava. Por mais que existisse um entrosamento no Brasil, uma situação de convívio “harmonioso”, você tinha que respeitar para ser respeitado, e também tinha que aceitar para ser aceitado.

O legado da coletânea, 30 anos depois

É como um cara que gosta de música negra ouvir um disco do James Brown. Tem algo que você aprende nele. Pode também ter algo que você critique, mas você é agradecido por ter existido esse disco e os artistas que fizeram esse disco. Revolucionou uma época, revolucionou uma geração e deu o peso para que a música urbana que é feita hoje em dia se estabelecesse como cultura e como mercado. Começou ali no Cultura de Rua e hoje gira moda, comportamento e tudo está relacionado ao hip-hop.

Funk, trap: a música de hoje  

Eu escuto. É evolução musical. A gente tem que compreender que eles (os novos ouvintes) vão tendo contato com outros estilos, ritmos, sistemas de produção, equipamentos, tecnologia... É bem diferente. Eu, particularmente, tenho meu gosto musical, que é enraizado naquilo que me formou musicalmente. Principalmente o som que bateu muito nos anos 1970 e nos anos 1980. Tem muitos artistas que estão vindo, que estão chegando e vão fazer história, mas vejo também que tem muitos que não vão conseguir seguir adiante, continuar. Porque não é só a fama ou a história que fazem o artista permanecer por três ou quatro décadas. É o prestígio. E prestígio você não compra com dinheiro. Nem em festas com balada. Ele é mais que isso. É uma energia que se junta com gratidão, compreensão. Espero que muitos desses artistas continuem nos próximos 20 anos, e que também consigam evoluir com a próxima música que vier, porque essa é uma coisa natural. Mas a música feita no passado não vai deixar de existir porque, assim como eu existo, outros entusiastas irão buscar saber como é que tudo aconteceu, e vão sempre se reciclar. Procuro buscar algo atual e contemporâneo, mas sem esquecer das origens que foram importantes para formatar todo esse movimento musical. Os artistas do hip-hop devem honrar o passado tão duro e árduo que abriu esse espaço. É isso.

MAIS

Fique de olho: nos próximos dias, publicaremos um minidocumentário sobre a história do álbum Hip-Hop Cultura de Rua, com depoimentos de DJ Hum, Kamau e DJ Erick Jay.

Em 2015, Thaíde também esteve no Estúdio Showlivre. Confira a apresentação, na íntegra

Recomendamos também que você ouça a mixtape Máquina de Dança, uma verdadeira imersão na história do rap brasileiro, compilada e produzida por DJ Nuts

Veja a apresentação de DJ Hum e o Expresso do Groove no Estúdio Showlivre.