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A escalada do LSD nos EUA em um dos clássicos de Tom Wolfe

O ônibus psicodélico utlizado pelo escritor Ken Kesey e os Merry Pranktesrs para difundir o LSD nos EUA. Foto: Reprodução / Twitter

Morto na última segunda-feira (14) aos 88 anos, em Nova York, por consequência de uma infecção generalizada, o jornalista e escritor norte-americano Tom Wolfe marcou a história da imprensa do século 20 como um dos pais do chamado New Journalism (Novo Jornalismo), movimento também conhecido como Jornalismo Literário.

Difundido por repórteres e cronistas geniais como Wolfe, Norman Mailer, Truman Capote e Gay Talese, o novo gênero foi estabelecido e consagrado a partir de matérias de fôlego, ensaios e livros-reportagens com narrativas que adotavam os melhores recursos estilísticos do universo ficcional sem abrir mão da premissa jornalística de retratar a verdade com imparcialidade.

Ao lançar mão da subjetividade para tecer retratos da realidade sociopolítica dos Estados Unidos em detrimento da objetividade pragmática do jornalismo factual, autores como Wolfe, Talese, Capote e Mailer exerceram papel análogo ao dos melhores historiadores de seu tempo no cumprimento de documentar as transformações comportamentais experimentadas pela sociedade norte-americanal no século 20.

Nascido em Richmond, no estado da Virginia, cansado das perspectivas medianas de sua cidade natal, depois de graduar-se em Priceton, Nova Jersey, e defender um doutorado em Estudos Americanos na Universidade de Yale, em Connecticut, Wolfe migrou para a capital federal dos Estados Unidos em 1959. Por lá, começou a fazer história no jornal The Washington Post. Em 1962, partiu de vez para Nova York, onde trilhou caminho ainda mais ascendente no The New York Herald Tribune.

Em 1963, em colaboração para a revista Esquire, Wolfe causou frisson na imprensa local ao publicar um ensaio divisor, pela estética e densidade incomuns com que retratou dois personagens símbolos da obsessão norte-americana por automóveis, Ed “Big Daddy” Roth, considerado um dos pais da cultura hot rod de carros envenenados e criador do personagem Rat Fink, e George Barris, designer de automóveis que assinou o antológico projeto do primeiro Batmóvel.

Em 1965, o ensaio – intitulado The Kandy-Kolored Tangerine-Flake Streamline Baby (algo como O Carrão de Racha Floco de Tangerina Cor de Doce) –  daria nome ao primeiro livro de Wolfe, uma compilação de suas primeiras reportagens, perfis, artigos e ensaios – na verdade, o título é uma abreviação do original, ainda mais extenso e permeado de onomatopeias: There Goes (Varoom! Varoom!) That Kandy-Kolored (Thphhhhhh!) Tangerine-Flake Streamline Baby (Rahghhh!) Around the Bend (Brummmmmmmmmmmmmmm)….

Entre outros temas, Wolfe também retratou a corrida espacial norte-americana (em Os Eleitos, adaptado para o cinema por Philip Kaufman e protagonizado pelo também escritor Sam Shepard) e a dinastia yuppie consolidada na Nova York dos anos 1980 (no romance A Fogueira das Vaidades, também vertido para a telona, com direçãodo mestre Brian De Palma e Tom Hanks no papel principal).

Sem se curvar ao critério de imparcialidade como um dogma, o jornalista jamais se privou de expressar sua acidez no retrato de alguns de seus personagens. Caso notório dessa prática é o ceticismo com que narrou a adesão de parte da elite norte-americana a pautas progressistas como o movimento Black Panther, tema de Radical Chic, ensaio de 1970 centrado em um jantar oferecido pelo compositor e maestro Leonard Bernstein para disseminar apoio à causa dos militantes radicais dos direitos civis dos negros.

Empatia diametralmente oposta à usual acidez de Wolfe foi manifestada em um de seus maiores clássicos, O Teste do Ácido do Refresco Elétrico, um catatau de quase 500 páginas em que ele retratou a tresloucada itinerância de um grupo de jovens batizado de Merry Pranksters (em tradução livre, “festivos gozadores”).

Liderada pelo escritor Ken Kesey, a trupe pretendia difundir o consumo do LSD como agente transformador da sociedade norte-americana por meio da “expansão da consciência”, experiência batizada pro Kesey de “testes do ácido”. A excursão com propósito de expansão deveria culminar em um filme, mas essa foi apenas uma das intenções iniciais que sofreram desvio de rota durante a epopeia mentecapta dos Pranksters (em 2011, no entanto, registros da viagem culminaram no documentário Magic Trip: Ken Kesey's Search For a Kool Trip, de Alex Gibney e Alison Ellwood; informação posteriormente encaminhada a este repórter pelo amigo Carlos Minuano, também jornalista - veja o trailer do filme).

Cronologia lisérgica

Em um álbum falado, homônimo e lançado em 1966, o psicanalista Timothy Leary cunhou a expressão “turn on, tune in & drop out” (algo como “se ligue, entre em sintonia e caia fora”). No ano seguinte, a sentença reverberou novamente com amplitude, em discurso proferido por Leary na abertura do Human Be-In, encontro que reuniu mais de 30 mil hippies no Golden Gate Park, em San Francisco.

O bordão provocativo foi então adotado por jovens de todo o mundo para resumir os ideais libertários da contracultura e a experiência transcendental propiciada pelo uso da substância cientificamente conhecida como Ácido Lisérgico Dietilamida, o famigerado LSD, sintetizado e "descoberto" acidentalmente em 1943 pelo cientista Albert Hoffmann, durante um trivial passeio de bicicleta.

Na transição de 1967 para 1968, veio o chamado Verão do Amor, e o uso de LSD fugiu de controle. Milhares de hippies, de costa a costa dos Estados Unidos, passaram a atuar como agentes multiplicadores da cultura lisérgica difundida por Leary. Situação que alardeou nas autoridades americanas a urgência de dar logo um fim à viagem da turma (ou não, parafraseando Caetano Veloso).

O psicanalista Timothy Leary (à esq.) e o escritor Neal Cassady retratados, no interior do ônibus, pelo poeta Allen Ginsberg, em 1964. Foto: Reprodução / Twitter

Até 1966, com o aval científico de pesquisadores como Leary, que primeiramente fez experimentos fechados em alguns de seus pacientes, o LSD foi vendido em farmácias dos Estados Unidos com a simples exigência de prescrição médica para fins psiquiátricos. A substância era distribuída em todo o país pela indústria farmacêutica Sandoz (liberação que, aliás, inspirou A Girl Named Sandozcomposição psicodélica da banda The Animals, ouça).

Mesmo com a substância banida das prateleiras das farmácias, o LSD continuou a ser difundido em círculos clandestinos por meio de laboratórios químicos caseiros e traficantes que forneciam a droga embebida em cartelas multicoloridas, micropontos e em soluções líquidas.

O ônibus original de Kesey sendo preparado para uma apresentação musical e mais um teste de LSD. Foto: Reprodução Twitter

Nos dias inaugurais e festivos de liberação, um experimento coletivo divisor para o movimento migratório feito pelo LSD, que saiu do ambiente científico para tornar-se combustível de transe generalizado da geração Flower Power, foi tema de O Teste do Ácido do Refresco Elétrico, publicado por Wolfe em 1968.

No livro-reportagem o iconoclástico repórter, notório por seus trajes brancos, narra a sucessão de aventuras vividas na estrada pelo Merry Prankters. Liderados pelo escritor Ken Kesey, autor do clássico Um Estranho no Ninho, os Pranksters se reuniram em 1962, para, entre outras pirações, dar início a experiências embrionárias de uso coletivo e recreativo de LSD em uma comunidade alternativa sediada em uma chácara em La Honda, na Califórnia, comprada por Kesey com os direitos autorais da adaptação do livro para o teatro na Broadway.

Dois anos mais tarde, em junho de 1964, os Pranksters empreenderam uma viagem sem precedentes – em duplo sentido literal: Kesey decidiu comprar um velho ônibus escolar fabricado em 1939, fez nele uma série de pinturas psicodélicas e adaptações, como incluir um sistema de áudio para que os músicos da trupe pudessem “transar” um som no teto do veículo, e caiu na estrada com sua trupe.

Tendo o neologismo “furthur” como destino (possível trocadilho entre as palavras além e futuro), municiado de muito LSD líquido diluído em jarras de suco de laranja, Kesey também escalou para alternar o volante do coletivo o escritor beat Neal Cassady, autor de O Primeiro Terço e inspirador do personagem Dean Moriarty, de On The Road, a obra-prima de Jack Kerouac.

O escritor e jornalista norte-americano Tom Wolfe

O drop out de Kesey e seus discípulos lisérgicos tinha um propósito bem definido: cruzar o máximo de cidades ao sul dos Estados Unidos e identificar voluntários dispostos a realizar os chamados “acid tests” (daí o “teste do ácido” no título do livro de Wolfe).

Ao documentar rotas da acid trip, Wolfe fez um dos relatos definitivos para se compreender a ascensão do psicodelismo e do desbunde que culminou na disseminação global da cultura hippie da segunda metade dos anos 1960. De quebra, no âmbito da música, também escancarou a influência do rock lisérgico da cena de San Francisco, de bandas como Grateful Dead, Jefferson Airplane e Quicksilver Messenger Service, para artistas europeus como os Beatles, os Rolling Stones, o The Who e o Pink Floyd.

Obrigatório para os amantes do bom jornalismo, O Teste do Ácido do Refresco Elétrico reitera o papel da contracultura como agente de transformação social durante os anos 1960, a década que, se não conseguiu mudar o mundo, inquestionavelmente impactou o porvir com o exemplo de jovens que defenderam suas paixões, suas convicções e anseios com todas as garras, com o coração pleno de valores fraternais e os sentidos abertos e aflorados para o novo. No Brasil, O Teste do Ácido do Refresco Elétrico foi publicado pela Companhia das Letras, e pode ser facilmente encontrado.

Em 2014, em celebração aos 50 anos da jornada lisérgica iniciada em 17 de junho de 1964 por seu pai, falecido em 2001, Zane Kesey, filho de Ken e Norma Faye Haxby, que era um garoto de apenas 3 anos quando ajudou a trupe dos Pranksters a colorir o velho ônibus, decidiu cruzar algumas estradas dos Estados Unidos ao longo de 75 dias com uma réplica do veículo.

A nova expedição, bem distante da porralouqice original, foi viabilizada por meio de uma vaquinha online, com colaborações a partir de US$ 200, aderida por simpatizantes do espírito transgressor de Kesey, neófitos da contracultura, hippies nostálgicos dos tempos de loucura, além de fãs de primeira hora do Grateful Dead, que "transou um som" – para usar uma expressão da época – no desbundado busão quando ainda viviam dias embrionários e atendiam pela alcunha The Warlocks.

A excursão comemorativa também rendeu um documentário, dirigido por Lindsay Kent e Colby Rex O'Neill, que ganhou o nome de Going Furthur (veja abaixo o trailer) e contou com a presença de pranksters originais, como Ken Babbs, espécie de guru da trupe, George Walker, Wavy Gravy e Lee Quarnstrom.

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