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A construção do pop brasileiro pela ótica de Roberto Farias

Morto no Rio de Janeiro aos 86 anos nesta segunda-feira (14) em decorrência de um câncer de próstata, o cineasta Roberto Farias marcou a história do cinema brasileiro ao assinar clássicos como a comédia Rico Ri à Toa, seu primeiro longa, de 1957, O Assalto ao Trem Pagador, de 1962, verdadeira escola para os longas de ação do País, e Prá Frente Brasil, de 1982, um contundente retrato dos excessos cometidos durante o regime militar que comandou o País entre 1964 e 1985.

No legado de seu grande talento também serão indissociáveis três filmes que contribuíram para atribuir à Jovem Guarda o status de movimento que consagrou a cultura pop no País como um fenômeno de transformação comportamental de nossa juventude.

Entre 1968 e 1971, Farias dirigiu a célebre trilogia de filmes de ação do Rei Roberto Carlos. Produções que, somadas, levaram aos cinemas do País quase 10 milhões de espectadores.

Carregada de ímpeto desafiador, espírito rebelde e referências que moldaram a música, o comportamento e a moda jovem do período, não é exagero afirmar que a trinca de longas-metragens teve efeito local equivalente ao fenômeno da beatlemania deflagrada com o êxito mundial de A Hard Day’s Night (1964).

O primeiro filme, Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1968), também roteirizado por Farias, foi produzido na esteira do álbum epônimo lançado às vésperas do Natal de 1967. Em meio às canções do LP apresentadas como videoclipes inseridos na narrativa, o filme flagra as peripécias do cantor enfrentando os vilões de uma quadrilha internacional liderada por José Lewgoy.

Espécie de peça complementar do LP, o longa teve um super-orçamento e possibilitou ao diretor, que já havia demonstrado sua vocação para tirar o fôlego do público em Assalto ao Trem Pagador, extrapolar a imaginação e executar planos-sequências mirabolantes, como o voo de um helicóptero no interior do túnel do Pasmado, no Rio de Janeiro. Ao receber do piloto Antonio Carlos Nascimento a confirmação de que a façanha seria possível, Farias decidiu embarcar na aeronave e fazer o papel de dublê do Rei Roberto (veja a cena).

Outra sequência inimaginável à época, foi rodada no Cabo Canaveral, na Flórida, com autorização da NASA, a Agência Espacial Americana. Antecipando em dois anos o famoso Rooftop Concert, quando, em 30 de janeiro de 1969, os Beatles se exibiram no terraço de sua gravadora, a Apple Records, para antecipar algumas faixas do álbum Let it Be, Farias colocou Roberto e banda para tocarem a canção Quando no terraço do Copan, o icônico edifício modernista de Oscar Niemeyer, em São Paulo (veja abaixo).

Também lançado em 1968, Roberto Carlos e O Diamante Cor de Rosa reúne Roberto, Erasmo Carlos e Wanderléa, que estão em excursão no Japão quando a Ternurinha, em uma loja de antiguidades, decide comprar uma estatueta e é perseguida por um vilão, Pierre, novamente vivido por Lewgoy. Em um confronto com os capangas do bandido que leva a estátua aos cacos, o trio de estrelas da Jovem Guarda descobre que a peça contém em seu interior um mapa que levará a um tesouro escondido no Rio de Janeiro, que inclui a valiosa gema do título do filme. Com sequências também rodadas em Israel, o filme tem um impagável gênio samurai, como aliado de Roberto, Erasmo e Wanderléa.

Capítulo à parte, a trilha sonora original de O Diamante Cor de Rosa lançada pela Polydor é hoje uma relíquia à parte, pela tiragem limitada devido a questões contratuais com a CBS, gravadora de Roberto. Para se ter uma ideia, a única cópia no Discogs, site global voltado à venda de LPs, compactos e CDS, está disponível pela “bagatela” de R$ 2.900.

Único filme da trilogia em que Roberto não aparece como cantor, Roberto Carlos a 300km por Hora apresenta o Rei da Jovem Guarda como o mecânico de automóveis Lalo, que forma uma equipe de corrida e substitui seu patrão, dono da concessionária onde ele trabalha e piloto oficial da equipe, quando este sofre um grave acidente. O filme leva o diretor e seu xará ao consenso de que deveriam encerrar a saga cinematográfica, porque Farias começava a ficar estigmatizado como “o diretor dos filmes do Roberto Carlos”, epíteto mais que reducionista para um dos maiores talentos do cinema brasileiro.

Roberto Carlos e Roberto Farias durante as filmagens de Roberto Carlos a 300Km Por Hora

No artigo “Não Vai Ser Mole Me Acompanhar”: Roberto Carlos e a sinergia no cinema juvenil brasileiro, um dos ensaios que compõem o catálogo da mostra Os Múltiplos Lugares de Roberto Farias, realizada no Rio de Janeiro em 2012, o pesquisador e jornalista Pedro Curi reitera o papel central do cineasta, que era irmão do ator Reginaldo Farias, como personagem central na criação de um imaginário jovem e pop genuinamente brasileiro.

“Juventude, cinema, televisão, indústria fonográfica, publicidade, consumo e idolatria são alguns dos elementos que, somados, possibilitaram a criação da Trilogia Roberto Carlos, não como o primeiro produto do tipo, mas como de forma amadurecida, fazendo uso de todos eles de maneira inteligente e planejada. Uma variável foi fundamental para que o resultado fosse esse: Roberto Farias. O diretor e roteirista – que também é montador, câmera e, mais importante nesse caso, produtor – que soube combinar todos esses elementos em um produto complexo, que soube unir estilo ao mercado. Em uma época em que não se podia dizer qualquer coisa, Roberto Farias abriu os olhos e os ouvidos para o que estava sendo feito e usou um universo que já estava em circulação, enriquecendo-o de forma coerente, contribuindo diretamente para o processo de formação da cultura juvenil brasileira.”