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A evolução da música brasileira no piano de Dom Salvador

Dom Salvador e Elis Regina durante ensaio no Bottle's, em 1964. Foto: Arquivo pessoal 

Salvador da Silva Filho, ou melhor, Dom Salvador completa 80 anos nesta quarta-feira (12). Radicado desde 1973 em Nova York, nos Estados Unidos, com sua mulher, Mariá, e os filhos Marcelo, psicanalista, e Simone, socióloga, o pianista nascido no interior de São Paulo, em Rio Claro, fez trajetória das mais expressivas na música brasileira e mundial.

Egresso de uma família de 11 irmãos, Salvador começou a tocar bateria aos 6 anos de idade por influência do primogênito, Paulo. Apaixonado por música, Paulo tocava saxofone, contrabaixo e bateria. Percebendo a vocação e o interesse do caçula, orientou o menino a deixar de lado o aprendizado intuitivo da bateria e o convenceu a estudar piano aos 9 anos, para que ele também aprendesse a ler partituras. Um ano mais tarde, apostando no potencial de "Toím", como Salvador era chamado pelos irmãos, que juntaram economias para comprar um surrado instrumento, o caçula ganhou seu primeiro piano de parede.

As aulas de piano erudito com a professora Liselotte, de ascendência alemã, foram fundamentais para viabilizar ao menino um caminho de expectativas profissionais na música. Aos 14 anos, então discípulo da rigorosa Ofélia, sua nova professora, que assumiu o papel de Liselotte depois que ela se casou e partiu para Campinas, Salvador passou a integrar a Orquestra Excelsior e se apresentar regularmente em bailes que corriam o interior de São Paulo.

Aos 16 anos, mudou-se para a capital paulista. Na noite de inauguração da boate Black & White, no Réveillon de 1962, Salvador passou a integrar o conjunto Oliveira E Seus Black Boys. No grupo, conheceu sua inseparável companheira, a cantora Mariá. Foi também na boêmia do centro de São Paulo que o pianista teve um encontro divisor para sua carreira.

Quis o acaso que, certa noite, Salvador topasse com a cantora Flora Purim e o baterista Dom Um Romão no mítico bar Baiúca, um dos "laboratórios" do nascente samba-jazz paulistano. Dom Um então liderava um combo carioca, o Copa Trio, um dos artífices do novo gênero instrumental derivado da bossa nova.

Impressionada com a performance do jovem pianista que subiu no diminuto palco para uma canja, Flora o convidou para morar no Rio de Janeiro e integrar o trio do marido, porque sabia de antemão que o posto de pianista do combo ficaria vago em menos de 15 dias, com a saída de Toninho.

Com o Copa Trio, Salvador começou a ganhar visibilidade entre os grandes músicos cariocas, além de contribuir para a consolidação de Elis Regina no circuito da então capital da Guanabara, quando, em 1964, liderou o trio de apoio da cantora em uma série de shows no Bottle's, o emblemático inferninho do Beco das Garrafas.

“Almoçávamos eu e o Mané Gusmão – baixista do Copa Trio, com quem fui morar logo que cheguei ao Rio -, e ele comentou que tinha acompanhado uma jovem cantora de Porto Alegre na TV Rio, e que ela o havia deixado muito impressionado. Gusmão deu seu telefone para Elis. Queria apresentá-la a um dos donos do Bottle’s. O telefone tocou e a Helena, mulher do Gusmão, atendeu, dizendo que era a ‘tal’ Elis. Combinaram de ir ao Beco das Garrafas à noite. Lembro da Elis chegando, muito caipira e nervosa. O Dom Um, tentando acalmá-la, levou-a para o palco, tocamos, mas, por pura insegurança, ela não rendeu o que era capaz. O Giovanni não gostou do que viu e ouviu, mas Dom Um e Gusmão o convenceram a produzir um show para a Elis. Foi aí que tudo começou", recordou Salvador em entrevista com o músico que publiquei, em novembro de 2011, na extinta revista Brasileiros.

Com a partida de Dom Um para uma série de shows internacionais acompanhado o Brasil 65' do pianista Sérgio Mendes, não tardou para que Salvador arquitetasse um combo quentíssimo, ao lado do baixista Mané Gusmão (também egresso do Copa Trio) e do baterista Edison Machado. E foi Edison, criador do samba no prato e um dos bateristas mais influentes de sua geração, quem deu ao grupo o nome de Rio 65 Trio, em referência ao quarto centenário da Cidade Maravilhosa.

Com o Rio 65 Trio, Salvador lançou dois álbuns: o primeiro, homônimo, um clássico, estudado por aspirantes a jazzistas até mesmo na lendária Berklee College of Music, em Boston, nos EUA; o segundo, não menos importante, batizado de A Hora e a Vez da MPM. Findado o grupo de "música popular moderna", o pianista lançou, em 1965 e 1966, dois álbuns, com um novo combo intitulado Salvador Trio.

Entre 1967 e 1969, Salvador atuou como músico profissional para grandes gravadoras. Ao se aproximar de Hélcio Milito,  produtor da CBS, o pianista ganhou do ex-baterista do Tamba Trio a alcunha de “Dom” e um álbum divisor para sua carreira, lançado em 1969, pela CBS.

No cultuado LP, o pianista, por influência de Milito, incorporou à sua brasilidade jazzística elementos de soul e funk, gêneros norte-americanos incipientemente explorados por aqui, mas timidamente disseminados pela influência do patriarca James Brown que, aos poucos, ganhava simpatizantes no Brasil, como os músicos dos grupos Impacto 8, do trombonista Raul de Souza, e o Cry Babies, liderado pelo saxofonista Oberdan Magalhães.

E foi justamente reunindo bambas egressos do Impacto 8 e do Cry Babies que Dom Salvador montou seu supergrupo, o noneto Abolição, para participar do V Festival Internacional da Canção, de 1970, com o tema Abolição 1860-1980, escrito por Salvador e Arnoldo Medeiros.

Grande vencedor do festival com BR-3, Tony Tornado reiterava a informação de que uma nascente onda influenciada pela música negra norte-americana de matrizes africanas também se estabelecia no País.

Em 1971, veio o convite da CBS para que o Abolição lançasse seu primeiro álbum, um clássico instantâneo, que ganhou o imponente nome Som, Sangue e Raça e abriu caminho para fusões musicais de gêneros brasileiros e estrangeiros jamais ouvidas no País.

Ouça o álbum Som, Sangue e Raça, de Dom Salvador e Abolição

Produzido pelo húngaro Ian Guest, o disco foi registrado com total liberdade por Dom Salvador e seus músicos – entre eles, craques como Oberdan, o baixista Rubão Sabino, Serginho Trombone, Luiz Carlos Batera, o guitarrista José Carlos, o trompetista Darci e a mulher do pianista, Mariá.

O álbum é desses raros títulos que arrebatam o ouvinte logo a primeira audição. Emociona, desde a faixa de abertura, Uma Vida, cantada pelo baterista Luiz Carlos. Entre os 12 temas, três já tinham sido registrados por Dom Salvador no álbum de 1969: a belíssima O Rio, que cruza uma elegante e insistente frase de piano elétrico com percussão digna de escola de samba, Tio Macrô e Moeda, Reza e Cor.

Entre os esparsos temas cantados do álbum, de forte sabor agreste e emocional, a sublime Hei Você, foi composta por Nelsinho e Getúlio Cortês (autor de Negro Gato e irmão de Gerson King Combo). Guanabara, segunda faixa do disco, escancara que o cruzamento do funk com as células rítmicas do samba dava o maior pé.

Com a boa recepção do álbum, por dois meses o Abolição dividiu apresentações com Jorge Ben e o Trio Mocotó em uma série de shows intitulada Tudo Que Vai Vem, no Teatro da Praia, no Rio de Janeiro, em 1972. O grupo também fez temporada na requintada boate Number One, em Ipanema. Prestes a fechar o repertório para um segundo álbum, o noneto foi extinto por problemas incontroláveis.

Parte dos músicos aderiram ao desbunde comportamental daquela virada de década e tiveram sérios problemas com álcool e drogas. Situação que colocou Dom Salvador, como líder do combo, em uma tremenda saia justa, porque eram frequentes as faltas e atrasos a ensaios e shows, e ele, como "testa de ferro" do Abolição, eventualmente responderia  juridicamente pelas baixas do grupo.

"A coisa desandou, porque eles eram muito jovens, vivíamos aquela fase em que era ‘normal’ abusar de drogas e álcool – muito naquela onda do Woodstock e da contracultura – e não deu para segurar a barra. Eu era o responsável por tudo, cedo ou tarde me daria mal, e fiquei desiludido. Trabalhava para a Odeon (pela gravadora, Salvador assinou arranjos e tocou piano no clássico Elza Pede Passagem, de Elza Soares) e me deram férias. Eu tinha uma sobrinha que morava aqui em Nova York, minha ideia era vir passear, mas decidi ficar", revelou Salvador na entrevista à Brasileiros.

Um ano depois de romper com os músicos, o pianista partiu para Nova York, em março de 1973. Nunca mais voltou para o Brasil, apesar de se apresentar por aqui com certa frequência, como ocorreu dias atrás, no final de agosto, quando foi um dos destaques da programação do festival Sesc Jazz.

Nos Estados Unidos, Dom Salvador lançou, pelo selo Muse, em 1976, outro grande álbum, My Family. Desde 1977, atua como pianista residente do River Cafe, em Manhattan.

“Logo que cheguei, fiz vários trabalhos como músico de jazz, mas o dinheiro não dava para sobreviver. Foi então que, em 1976, fui convidado pelo Charlie Rouse, saxofonista do Thelonious Monk, para fazer um álbum chamado Cinnamon Flower. Com a morte do Thelonious, o Charlie decidiu formar outro grupo, chamado Sphere, e parti para outra. Fui convidado para inaugurar o River Café, aqui em Nova York, em 1977, mas ainda cheguei a trabalhar dois anos como diretor musical do Harry Belafonte. O River é um lugar de referência para mim. Sempre me deu muita flexibilidade e é por isso mesmo que eu ainda toco lá quatro, cinco vezes por semana. Conheci muitas estrelas no River. Tive o prazer de tocar para o Frank Sinatra, a Liz Taylor e o Paul Newman”, revelou Salvador na entrevista à Brasileiros.

O Abolição teve vida efêmera, assim como a carreira local de Salvador, mas o importante legado da banda e do músico é indiscutível. Dissidentes do Abolição, como Oberdan Magalhães, fundador da Banda Black Rio, banda que agregou boa parte do noneto, foram decisivos para a consolidação de uma cena musical que revelou artistas como Gerson King Combo, Carlos Dafé, a banda União Black e o compositor Miguel de Deus, pontas de lança do Movimento Black Rio.

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