Carregando...
Showlivre.com
Cadastre-se / Entrar

Blog

“Mágico de Oz”: 20 anos do contundente clipe do Racionais

 

Os Racionais MCs em foto de Rui Mendes para a divulgação de Sobrevivendo no Inferno

Lançado oficialmente no último sábado (5), This is America, o mais recente single e clipe do rapper Childish Gambino, codinome de MC do ator e humorista Donald Glover, caiu como bomba nas redes sociais – primeiro em seu país de origem, os Estados Unidos, como escancara o título da canção, depois no resto do mundo.

O apelo viral da peça audiovisual – além, é claro, da força da música, hipnótica em suas nuances entre o rap e o trap – veio da contundente narrativa de denúncia social vista nos quatro minutos e cinco segundos do clipe. Cinco dias depois, This is America já foi visualizado por mais de 65 milhões de pessoas ao redor do globo.

Em minhas redes sociais, composta sobretudo por uma “bolha” de amigos reais e virtuais apaixonados por música, This is America virou espécie de monotema entre segunda e terça-feira desta semana. Nada mais justo.

Independentemente dos mistérios que ainda possam haver no sem-número de referências cifradas do vídeo (entre elas, assassinatos de jovens negros por policiais, massacres e ondas de rebelião em resposta a essas atrocidades), This is America já nasce com credenciais de sobra para escalar o topo da lista de clipes mais contundentes dos últimos anos, se não da última década.

Entre os amigos que repercutiram o petardo de Gambino, houve também quem lamentasse que num dos momentos mais complexos da história recente do Brasil – crise que tem agravado ainda mais nossa herança secular de exclusão social e violência contra a população negra, comunidades periféricas e minorias segregadas por critérios que desconhecem valores como empatia e alteridade como a negação do direito à livre orientação de gênero – sejam rarefeitos os vídeos com a mesma voltagem explosiva de reflexão.

Concordo, mas pondero. Em termos objetivos, o volume menos expressivo de produções com esse caráter combativo talvez esteja mais atrelado à realidade do mercado fonográfico de um País em bancarrota.

Vale lembrar que, a despeito de muitos artistas terem hoje a autonomia de produzir singles, EPs e álbuns de forma independente, a distribuição precária e a baixa capilaridade de shows em âmbito nacional – sobretudo para um gênero ainda cercado de tantos preconceitos como o rap – são fatores determinantes para a escassez de recursos financeiros que possibilitem a produção de videoclipes. Por outro lado, clássicos como O Trem (veja abaixo), do RZO, e virais do funk contemporâneo comprovam que baixo orçamento pode também resultar em alta fidelidade.

Alguém aí pode dizer que desde o fim da MTV clipes não fazem mais sentido, mas tolo é quem não sacou que os canais de streaming de vídeo, sobretudo o Youtube, tomaram hoje o papel das prensas de CDs e LPs das grandes gravadoras – os 65 milhões de visitas ao vídeo de Gambino em tempo recorde não me deixam mentir.

Olhando em retrospecto, no entanto, é possível afirmar que, na seara do rap, temos aqui um histórico de produções audiovisuais com a mesma contundência de This is America. Clipes que, se fossem divulgados hoje, também tomariam de assalto as redes sociais e seriam repercutidos por parte significativa da audiência do Facebook e do Twitter.

Ouça registros exclusivos do Showlivre na playlist Rap é Compromisso

Um desses clipes, destaque no clássico álbum Sobrevivendo no Inferno (1997) do Racionais MCs, Mágico de Oz (rap composto e interpretado por Edi Rock), completará em breve 20 anos desde seu lançamento, quando foi ao ar na saudosa MTV, em 21 de outubro de 1998.

No site oficial do Racionais, o vídeo é apresentado da seguinte forma: "A música, que faz parte do álbum Sobrevivendo no inferno, clama por dias melhores e a narrativa mostra o quanto é duro ser negro e pobre no Brasil desde sempre. A letra de Edi Rock soa como uma oração pedindo aos céus que o mundo se torne um lugar melhor para se viver. Assim como o clipe Diário de um Detento, Mágico de Oz foi elaborado pelo diretor Mauricio Eça com fotografia de Rui Mendes."

O clipe tem início com uma cena em que Edi e Kl Jay, DJ do Racionais, estão no interior de uma Volkswagen Parati e são abordados por um menino negro, de 7 ou 8 anos de idade, pedindo dinheiro em um farol de São Paulo. O MC pergunta ao menino se ele mora na rua e onde está seu pai. Com uma afirmativa, uma negativa e algumas cédulas de real dobradas na palma da mão direita, o garoto desaparece entre a fileira de carros que aguardam o semáforo abrir. Na sequência: cenas da criança peregrinando pelas ruas da Boca do Lixo, no centro de São Paulo, em meio a traficantes, prostitutas, consumidores de crack e toda sorte de excluídos. Sobrepostas ao cotidiano do garoto, imagens do Massacre do Carandiru, ocorrido seis anos antes, reiteram nosso passado insolúvel de violência policial. This is Brasil. Assim mesmo: com s de súplica, s de socorro!

Melhor que ler essa descrição pífia do clipe (ou pior, pela realidade cruel e imutável nele retratada) é rever os mais de oito minutos de Mágico de Oz (confira abaixo). Na sequência, com a colaboração dos colegas de redação Gabriel Alves, Clemente Nascimento, João Vicente Seno e Leonan Oliveira, confira uma seleção de clipes do rap nacional com o mesmo teor de denúncia social e de defesa enfática de direitos basilares de minorias.

Racionais MCs - Mágico de Oz

RZO - O Trem

Sabotage - Respeito É Pra Quem Tem

Trilha Sonora do Gueto - Pião Di Vida Loka

Karol Conká & Sabotage - Cabeça de Nego

Inqúerito - Eu Só Peço a Deus

Emicida - Mandume

Triz - Elevação Mental