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O protagonismo feminino na música brasileira

Bia Ferreira no Estúdio Showlivre. (Foto: Aline Oliveira)

“O principal papel da mulher, em qualquer área, é ser a protagonista de sua própria história”. A afirmação de Tchella, cantora de 29 anos que lança este ano seu primeiro disco, evidencia um sentimento (e movimento) que passou a ganhar força no Brasil dos últimos anos: mulheres estão assumindo lugares de protagonismo em um cenário que parecia já estar dominado por nomes masculinos - a música.

Depois de uma série de anos serem dominados por Wesley SafadãoLuan Santana, Marcos & Belutti e outros dos principais nomes masculinos mais populares do país, a Folha de São Paulo revelou – através de uma intensa análise de dados de consumo musical – que, em 2017, a cantora Marília Mendonça, aos 22 anos, é o nome mais tocado das rádios e plataformas de streaming no Brasil.

O resultado, embora não seja tão significativo para milhões de pessoas que usam a Música apenas como a trilha sonora de suas vidas, tem um peso considerável na construção de uma nova realidade de novos nomes da música. “É uma porta de entrada que ela está abrindo para que outras mulheres possam crescer na música também”, conta Tai Cernicchiaro, vocalista da Ramona Rox, durante uma entrevista concedida em maio deste ano.


Tai é a única mulher na banda Ramona Rox. (Foto: Divulgação)

Aos 27, a fluminense é a única mulher na formação da banda Ramona Rox. Notados por Katy Perry por conta de um cover do sucesso “I Kissed a Girl”, o grupo ganhou visibilidade internacional e, atualmente, acumula números significativos em suas contas oficiais na internet.


Tai, embora tenha ganhado mais visibilidade na frente da Ramona, não é um rosto inexperiente no mercado. A jovem toca violão desde os 12 anos de idade e apresentou seu primeiro show, ao lado de uma banda, quando tinha apenas 17 anos. Por ter crescido sendo alimentada de acordes e notas musicais, a cantora enxerga com clareza as mudanças do cenário. “Agora, as mulheres tem conseguido um espaço merecidíssimo na musica”, analisa.


Exemplo vivo dessa conquista de espaço é Luísa Manzin. Hoje com 21 anos, a produtora musical e líder da banda LUZIA nasceu e cresceu rodeada de bons exemplos musicais, já que seu pai – maestro – sempre alimentou a veia artística da filha frequentando ensaios, recitais, concertos, shows e etc. A jovem sabe muito bem o que é ser protagonista e dona de suas escolhas e projetos. “Eu percebi que era possível gerenciar a própria carreira e fui bem autodidata nesse aspecto”, conta.


Luísa Manzin é produtora musical, cantora e líder da banda Luisa.

Bia Ferreira, outro nome importante, é uma cantora negra e lésbica e – desde o começo – busca ser a peça principal de sua música e ideias. Com composições fortes, como “Cota Não é Esmola”, a cantora é exemplo de posicionamento político e força feminina na produção de conteúdo musical.


Embora ainda não esteja entre os nomes mais conhecidos do país, Bia coleciona milhões de visualizações em seus vídeos – comandados por ela mesma – no YouTube.


Embora estejam cada uma em um gênero, estilo, lugar e realidade diferente, Tchella, Tai, Luísa e Bia têm muito mais em comum do que imaginam. As quatro artistas, além de serem empoderadas, antenadas e super talentosas, são exemplos de liderança e a cara do futuro da música brasileira.


Uma pesquisa desenvolvida pela revista Gloria com o público do festival Skuta, evento sertanejo que aconteceu no Allianz Parque, em maio deste ano, revelou que – contrário à pesquisa feita pela Folha de São Paulo - 65% das pessoas acreditam que artistas masculinos são mais completos e capazes de segurar um show ao vivo por mais tempo, evidenciando um perfil ainda machista dos consumidores brasileiros.

Mercado machista: o talento basta?


Embora as pesquisas mostrem que o número de mulheres em posição de destaque e protagonismo na música cresceu, o mercado ainda se apresenta como uma entidade machista que desvaloriza a mulher. Assim como em todos os outros setores da sociedade, a mulher artista ainda tem o retorno financeiro inferior em relação aos homens, mesmo que o trabalho seja o mesmo ou produzam conteúdo parecido.


Luísa Manzin, por atuar como produtora musical e estar inserida num ambiente em que o “trabalho pesado” é feito, conhece bem o mercado musical e seus obstáculos para as mulheres. Segundo a jovem, o mercado é extremamente machista e a maior prova disso é que o número de mulheres que trabalham na produção de artistas grandes é notoriamente inferior. Essa diferença é resultado do olhar preconceituoso e objetificado que é lançado à mulher e da dificuldade de inserção do gênero na área. “Ninguém te enxerga como profissional, mas como uma possível foda, acima de tudo”, conta.


Tchella, dona do Transmutante (2018), está lançando seu primeiro disco e, apesar de ter pouco tempo no mercado, também sente o efeito colateral do machismo no setor. “Existem sempre menos mulheres do que homens nas escolas de música, começando pelo corpo docente”, afirma. Para a cantora, o machismo é tão forte que pode ser contabilizado em números. Um exemplo disso é o quadro de atrações do festival Lollapalooza deste ano. “Das 72 atrações, apenas 16 eram mulheres. Isso é 1/4, é muito pouco! Como não dizer que não é machista?”,exemplifica. Para a mulher, é extremamente difícil encontrar um ambiente no qual o artista consegue realmente exercer sua arte e expressar ideias e sentimentos sem se preocupar com o julgamento, longe do machismo e da rotulação da sociedade. E é exatamente isso que o Transmutante, o primeiro álbum da cantora, se tornou para Tchella: Um lugar livre!


Um ambiente ainda mais cruel para a mulher, as redes sociais – por conta do sentimento de segurança e impunidade – acabam se tornando um meio para a propagação do preconceito. Os comentários construtivos de fãs são muitos, mas o número de registros negativos e abusivos também é significante.“Sou constantemente assediada por homens que não respeitam minhas publicações como trabalho artístico. Me chamam em conversinhas paralelas e logo perguntam ‘você é casada?’. Quero morrer com isso”, completa Tchella.


Confirmando as ideias de Luísa, Tai Cernicchiaro conta que a valorização do trabalho da mulher acontece, mas apenas quando existe uma segunda intenção. “É sempre mais complicado pra mulher, principalmente se não tiver apelo sexual”, desabafa. A líder da Ramona Rox, embora nunca tenha se sentido discriminada entre os membros do grupo, revela que entre os diversos comentários dos fãs, sempre aparece alguém que quer atingir a vocalista de forma machista. O segredo para lidar com tudo isso,segundo a cantora, é bem simples: não dar importância. “Essas pessoas a gente tem que ignorar”, conta.


Bia Ferreira – por ser mulher, lésbica e negra – sente ainda mais todo esse preconceito para cima da mulher artista. A cantora coleciona situações nas quais foi desmerecida, seja por seu gênero, sexualidade ou cor. Bia se apresenta apenas acompanhada de um violão e, de acordo com seus relatos, a falta da presença masculina gera estranhamento de alguns contratantes. “Muitas vezes eu vou vender meu show e as pessoas perguntam “você não tem um baterista, um baixista”...eu falo “gato, se tiver um, vai ser uma””, conta. Além de tudo, o racismo – somado ao machismo – obriga que a cantora, assim como outras mulheres negras, acumulem diversas tarefas. “A gente tem que ser competente porque sou mulher negra, eu não posso saber só tocar o violão, eu não posso só saber cantar... eu tenho que saber tocar, cantar, falar o arranjo para o baixista, costurar, lavar uma roupa e ainda fazer produção”, desabafa. “Eu estou na base da pirâmide social”, completa.

O papel da mulher na música


Tchella lança neste ano o Transmutante, o primeiro álbum de sua carreira. 

 

Por conta de todo o valor sexual e machista, as quatro cantoras desenvolveram – mesmo que não conhecendo uma a outra – um comportamento e ideal similares: uma noção social e aprofundada da importância de seus trabalhos. O primeiro objetivo listado por todas elas é o empoderamento de meninas e mulheres que acompanham seu trabalho.


A representatividade, segundo Bia Ferreira, é um dos pontos principais quando assume um lugar de destaque e que pode virar exemplo para outras pessoas. Para ela, sua principal função é “mostrar para mulher e meninas negras que elas podem chegar e falar o que quiserem”. Tchella, por sua vez, defende a ideia de que o principal papel da mulher, em qualquer área, é bem simples: assumir o protagonismo de sua própria história. Para ela, a mulher tem que ser livre e consciente para escolher seus próprios caminhos. “A mulher é a forçada criação!”, afirma.