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Quadra de ases da bossa nova celebra os 60 anos do gênero

Marcos Valle, Roberto Menescal, Carlos Lyra e João Donato. Foto: Clara Nascimento / Biscoito Fino / Divulgação

Quase sessenta anos desde o lançamento do disco de 78 rotações por minuto que, em agosto de 1958, revelou ao Brasil a voz comedida e o violão imenso de João Gilberto, o legado musical do baiano de Juazeiro segue incompreendido e ignorado por milhões de conterrâneos seus. Não por acaso, aos 86 anos, João vive momento mais que complexo.

Considerado o Marco Zero fonográfico da bossa nova, gênero não inventado pelo baiano, mas plenamente equacionado por ele e defendido por músicos e historiadores como uma espécie de “big-bang” da música moderna do País na segunda metade do século 20, o dez polegadas surgiu imponente, apresentando duas canções arranjadas por Tom Jobim, ambas municiadas da seção rítmica divisora do baterista Milton Banana. A primeira, carro-chefe do disco, eternizada também com a exuberância melódica do fraseado da flauta transversal de Nicolino Cópia, o enorme Copinha.

Frequentemente mencionadas como uma espécie de "Constituição da Bossa Nova" em dois artigos, são elas: lado A, artigo 1, Chega de Saudade, um hino de desprendimento nostálgico do passado e perseguição do futuro travestido de canção romântica, clássico maior de Tom e Vinicius; lado B, artigo 2, Bim Bom, o baião zen-minimalista de João, uma das obras-primas de sua rarefeita faceta de compositor. Seis décadas passadas, o 78rpm que ostenta um par de selos pretos da Odeon é relíquia disputada a tapa por colecionadores espalhados pelo Brasil e ao redor do mundo.

Há, no entanto, quem, por ignorância ou insensatez, não dê valor, não dê a mínima. Nem pelo disco nem pela herança da bossa nova. “Invenção da juventude burguesa da zona sul carioca”, “música elitista”, “samba metido a jazz”, "música de apartamento": reducionismos dessa natureza atravessaram décadas sendo replicados por tolos, e ainda segregam a bossa como um gênero hermético, ultrapassado e praticamente capitulado na memória cultural do País. Tremenda sandice.

Aula magna de bossa

Desnecessário recomendar para os fãs de primeira hora, mas, aos incautos dispostos a se livrar da alienação descrita nos parágrafos acima, uma ruptura elevada desse paradigma estreito pode ser alcançada neste fim de semana, em São Paulo, nos três shows que reunirão os mestres Roberto Menescal, Carlos Lyra, João Donato e Marcos Valle. Municiada de seu coro de vozes, os violões de Menescal e Carlinhos e os pianos de Donato e Marcos, a quadra de ases da bossa se apresenta no Sesc Pinheiros nas noites de sexta-feira (11), sábado (12) e domingo (13).

O gancho do encontro, além da homenagem aos 60 anos do gênero consagrado a partir da chegada do 10 polegadas luminar de João Gilberto, é também revisitar o repertório do álbum Os Bossa Nova, trabalho que, na ocasião da celebração do cinquentenário da bossa, em 2008, foi lançado pela gravadora Biscoito Fino e reuniu o mesmo quarteto.

Ouça Gente, canção de Marcos e Paulo Sérgio Valle, na interpretação do quarteto

Chance rara de perceber, por exemplo, as nuances rítmicas afrocubanas, jazzísticas e funkeadas que aproximam a estética musical de Marcos e Donato; chance insuspeita de deleitar os ouvidos com a audição da miríade de harmonias, acordes, frases e solos capazes de amalgamar os violões de Carlinhos e Menescal; chance de enterrar de vez a imagem clichê do músico sentado em um banquinho de madeira enquanto empunha seu violão com cordas de nylon e emite um canto comedido – estereótipo, é claro, criado em torno da figura mítica de João, Sumo Pontífice da bossa.

De ouvidos atentos e olhos bem abertos, o público presente na plateia do Teatro Paulo Autran, onde serão realizados os três shows, concluirá que, assim, embalada de forma conjunta e misturada, a diversidade musical de bossanovistas monumentais como Menescal, Carlinhos, Donato e Marcos, é identidade complementar e mais que convergente.

Em meio às contingências dos ensaios para o primeiro show desta sexta-feira, o cantor, compositor e arranjador Marcos Valle reservou alguns minutos para enviar à reportagem do Showlivre um breve depoimento sobre a influência e a amizade que ele nutre por seu mestre e parceiro João Donato. Nossa intenção era também repercutir com ele a inspiração herdada de Menescal e Carlinhos, uma vez que Marcos e seu irmão, o letrista Paulo Sergio Valle, são considerados pontas de lança da chamada "segunda geração da bossa nova", e consequentemente influenciado pelo trio (Carlinhos, aliás, completou 79 anos nesta sexta), mas infelizmente não houve tempo hábil para o registro. Leia, portanto, a declaração de Marcos Valle sobre João Donato.

“Conheci o João bem no início da minha carreira. Logicamente era uma das minhas grandes influências da bossa. Depois eu convivi com ele em Los Angeles, na época em que Samba de Verão estourou por lá. Mais tarde, quando ele veio para o Brasil para passar pouco tempo, eu produzi um disco pra ele, o Quem é Quem (o clássico LP lançado pela Odeon em 1973, álbum que marca a transição de Donato para o canto), e a partir disso ele nunca mais voltou para os Estados Unidos. Uma coisa muito legal, para mim e para ele. Somos parceiros de várias músicas e gosto muito do estilo dele tocar. Temos semelhanças: os grooves, os balanços parecidos. João Donato é uma grande influência para mim.”

SERVIÇO

Os Bossa Nova

Sesc Pinheiros – Teatro Paulo Autran

Sexta e sábado, às 21h; domingo, às 18h.

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