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'Som, Sol & Surf ': uma viagem, em ondas literais e metafóricas, em defesa da liberdade

Frame da apresentação de Raul Seixas no festival. Foto: Divulgação

Praticamente inéditos havia mais de 40 anos, registros cinematográficos em 16mm do Festival Sol, Som, Surf, Saquarema'76 realizado no Rio de Janeiro, em 1976, agora vêm à tona em documentário de Helio Pitanga, que, por meio dessas imagens raras e de depoimentos de diversos personagens, reconstituiu a história do evento produzido em paralelo ao festival de surfe daquele ano.

Ainda sem estreia prevista nos cinemas, Som, Sol & Surf – Saquarema é um dos destaques da 10ª edição do In-Edit Brasil, festival internacional de documentários musicais atualmente em cartaz em São Paulo. O filme de Pitanga terá sua última projeção, gratuita, realizada nesta terça-feira (12) na Matilha Cultural.

No final de maio de 1976, dois anos desde o início do mandato do general Ernesto Geisel e num período em que a barra da ditadura ainda pesava muito para a juventude mais desbundada do País, um improvável encontro ocorreu nas areias da praia de Itaúna, em Saquarema, na região dos lagos do Rio de Janeiro.

Ao longo de um fim de semana, pacificamente coexistindo em barracas de camping apinhadas na extensa orla da praia, roqueiros e surfistas transaram um som da pesada e viajaram, dois dias e noites a fio, em ondas literais e metafóricas. O elemento de unidade entre as tribos? O tal festival de rock n’ roll realizado em paralelo ao V Festival Nacional de Surf de Saquarema. Parafraseando Rita Lee, tratava-se então do encontro de duas hordas de jovens com “cara de bandido”. Barato total!

Idealizado pelo produtor, compositor e letrista Nelson Motta, acatando a sugestão de um amigo local, o músico Flávio Spirito Santo, que também tocou no evento, mesmo enfrentando percalços o festival musical marcou história. Percepção, no entanto, restrita apenas àqueles que participaram do evento, justamente por falta de documentação da transa naqueles dois dias em Saquarema. Lacuna, agora, devidamente preenchida.

Envolvido em produções fonográficas, mas sem ter ainda realizado um festival de grandes proporções – o evento em Itaúna teve público estimado de 10 mil pessoas – Nelsinho queria mais: além dos dois dias de decibéis a todo vapor, pretendia filmar os shows na íntegra e, depois, lançar um documentário e um álbum duplo com uma seleção dos melhores momentos do festival. Pretensão – infelizmente não concluída – inspirada nos produtos derivados do antológico Festival de Woodstock, realizado nos Estados Unidos em 1969.

No cast da maratona de shows em Saquarema, estava uma energética trupe de artistas que, se não necessariamente poderiam ser classificados como roqueiros ortodoxos, caso de Angela Ro Ro e Ronaldo Resedá, convergiam com o espírito provocativo do rock em termos de curtição, astral elevado e ímpeto transgressor. Destaques do evento, que também contou com uma apresentação do Vímana de Lulu Santos, Ritchie e Lobão, Bixo da Seda, Made in Brazil, Rita Lee & Tutti Frutti e Raul Seixas fizeram apresentações memoráveis (no show de Raulzito, chama atenção a impagável performance do guitarrista Gay Vaquer, o tempo todo com o rosto coberto com uma máscara diabólica).

Imprevistos

Com a intenção de vender ingressos a preços módicos para a moçada, Nelsinho alugou um campo de futebol profissional de baixo custo, mas teve de lidar com um percalço: como o muro erguido no perímetro do campo enfrentava uma visível fragilidade, o produtor decidiu erguer uma cerca de isolamento para evitar o contato com o muro e sua possível queda.

Na abertura do festival, no entanto, uma tempestade cancelou parte das apresentações. Imprevisto amenizado com uma festa privativa para músicos e convidados regada, madrugada adentro, com muito LSD. Atrações transferidas para o dia seguinte, no entanto, o temporal culminou na derrubada de parte do muro. Consequência que possibilitou o acesso indiscriminado aos shows de encerramento e o clima de “liberou geral”.

Com produção executiva de Leonar Neto, direção de produção de Djalma Limongi, craques do cinema e da fotografia na captação de imagem, como Gilberto Loureiro e Miguel Rio Branco, som direto de Jom Tob Azulay, Som, Sol & Surf – Saquarema reúne depoimentos dos músicos, além de moradores de Itaúna e de surfistas. Em breve aparição no filme, o diretor revela o longo processo de restauração que possibilitou a realização do longa-metragem.

Estigmatizados com politicamente alienados, assim como os roqueiros (uma visão limitada, como demonstra o filme) os surfistas também dimensionam o quanto atletas e eventos pioneiros como esse foram decisivos para os avanços do esporte no Brasil, hoje celeiro de campeões mundiais como Gabriel Medina, Maya Gabeira e Adriano “Mineirinho” de Souza.

Nesses dias obtusos, em que milhares de brasileiros sem o menor conhecimento histórico de nosso passado recente defendem que o País seja novamente submetido a uma intervenção militar, além de reconstituir a atmosfera mística e libertária do festival, o documentário de Hélio Pitanga cumpre o papel de informar sobre o quanto foi preciso lutar para novamente termos acesso ao ambiente livre, de defesa de direitos basilares de cidadania, somente possível em um Estado Democrático de Direito.

Não custa lembrar que semanas atrás fomos surpreendidos com revelações do pesquisador Matias Spektor, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), de que a CIA sabia que o governo Geisel foi tão sanguinolento quanto o de seus antecessores. Como recorda Nelson Motta no filme, “o governo militar tinha pavor de muito jovem reunido”. Pautas comportamentais como sexo livre, uso recreativo de drogas e desprendimento da subserviência capitalista para a construção utópica de uma "sociedade alternativa" constituiam verdadeira ameaça aos estatutos de controle social dos generais. Desafiar essa estrutura temerária em diferentes graus de engajamento era, portanto, ato de coragem e urgência, e não somente "onda".

MAIS

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Veja o trailer do filme de Hélio Pitanga