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Mariana Aydar: "Tem coisas que só a mulher sabe falar"

Foto: Amanda Fogaça

Nesta terça-feira (8), a cantora e compositora paulistana Mariana Aydar completou 38 anos. A celebração à chegada deste novo ciclo foi em grande estilo e fazendo o que ela mais gosta: cantando ao vivo para o seu público. Focado em um repertório majoritariamente nordestino, com arranjos modernos de forró, xote e baião, o show foi transmitido na edição de ontem do programa Estúdio Showlivre.

Acompanhada dos músicos Cosme Vieira (sanfona), Magno Vito (contrabaixo), Bruno Marques (bateria eletrônica e sampler), Rafa Moraes (guitarra) e Feeh Silva (zabumba), com muita energia e empunhando um triângulo, Mariana interpretou um repertório de 11 canções, parte delas em formato de medley.

Em meio a clássicos de Dominguinhos e Gilberto Gil (Lamento Sertanejo), Alceu Valença (Coração Bobo e Anunciação), Moraes Moreira (Sintonia) e Sivuca (Feira de Mangaio), a apresentação também reuniu composições de artistas mais contemporâneos, como Lenine (Candeeiro Encantado) e Juliana Strassacapa, vocalista e percussionista da banda francisco, el hombre.

De Juliana, Mariana interpretou a canção Triste, Louca ou Má, apresentada por ela como um hino de sua geração. “É uma música linda, que fala desse momento que a gente está passando. Fala de mulheres guerreiras, que estão retomando sua força e sabendo da real importância delas para o desenvolvimento da humanidade.”

Aproveitando o depoimento, Clemente Nascimento, apresentador do Estúdio Showlivre, repercutiu com Mariana a evidência de que a geração de artistas da qual ela faz parte tem como forte característica a revelação de grandes compositoras e não só de intérpretes, como era comum na produção fonográfica brasileira no século 20.

“A gente já tinha compositoras desde Dolores Duran (cantora da década de 1950 que foi parceira de Tom Jobim), Rita Lee e Marina Lima, mas depois que veio a Vanessa da Mata, a Céu, começamos a entender que tem coisas que para falar delas é preciso ser mulher, tem coisas que só a mulher sabe falar.”

Como essa transição está intimamente ligada com a ascensão do feminismo na década de 2010, Mariana também falou sobre a ironia de exatos 50 anos depois das insurreições do Maio de 1968 as mesmas pautas – combate ao machismo e a o racismo, liberdade de expressão e defesa da democracia – voltarem à ordem do dia.

“É muito triste, mas é o ser humano... Enquanto a gente não olhar nossas corrupções, nossas epidemias, nossas loucuras, nada vai mudar do lado de fora. Acho que a gente está numa hora linda do coletivo, mas acredito muito na mudança individual, na mudança espiritual, na mudança de dentro. A gente pode até mudar o coletivo, mas o ser humano é uma raça escrota, com muito potencial pra ter luz, mas que precisa achar essa luminosidade.”

Sobre seu envolvimento com a música nordestina, sobretudo com o forró, Mariana diz tratar-se de paixão antiga, que remete à memória afetiva de sua infância.

“Conheci o forró muito cedo pela porta maior de todas: o Rei Luiz Gonzaga. Minha mãe (a produtora Bia Aydar, que foi empresária de artistas como Gonzagão, Lulu Santos, Roupa Nova e Guilherme Arantes) trabalhou com ele quando eu tinha 6 anos. Eu o conheci nessa época, e fiquei encantada, porque ele era muito legal comigo e tratava muito bem todas as pessoas. Uma figura emblemática, uma mistura de Papai Noel com avô. Como eu gostava muito dele, fui atrás do som e me apaixonei desde pequena. Depois, quando começou aquele boom do forró em São Paulo, eu fugia de casa para dançar, porque minha parada com o forró sempre foi principalmente dançar. Modéstia à parte, sei dançar um forrozinho.”

Mariana também recordou que deu canjas em shows do Trio Virgulino e que sua primeira banda profissional, Caruá, era dedicada ao gênero consagrado por Gonzagão. Outra experiência divisora, segundo ela, foi produzir ao longo de sete anos o documentário homônimo que codirigiu, com Eduardo Nazarian e Joaquim Castro, sobre Dominguinhos – “um grande amigo e grande mestre, que me ensinou muito”.

Interagindo com o público que acompanhou a transmissão pela página do Showlivre no Facebook, Mariana explicou que, mesmo não sendo o repertório apresentado ali a base de seu novo álbum, pretende lançar um álbum inédito com a mesma estética de arranjos até o final de 2018.

“Meu último trabalho (o álbum Pedaço Duma Asa, 2015) é sobre a obra do Nuno Ramos, um grande artista plástico. Desde então o forró vem me chamando. A gente está ‘namorando’ há um bom tempo. Cada vez mais estou indo para esse lado. Estou muito feliz com a banda e aquecendo um jeito meu de fazer forró enquanto preparo o disco. O palco é meu termômetro, onde me sinto bem, onde encarno e entendo as coisas. Legal a gente estar aqui nesse ‘aquecimento’.”

Veja na íntegra a apresentação de Mariana Aydar no Estúdio Showlivre