Otto exala espontaneidade no Sesc Pinheiros, em São Paulo


Apresentação divulgou vinil do celebrado Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos


Há dois tipos de atitude quando se trata da postura de um artista em cima de um palco. Há aqueles como Lady Gaga, responsáveis por apresentações executadas com perfeição, nas quais mínimos detalhes são ensaiados à exaustão e culminam em espetáculos como o show do intervalo da final do Super Bowl. E há também quem se paute única e exclusivamente pela espontaneidade. Como diz uma amiga, pela “naturalidade que traz paz pro coração”. No último sábado, dia 11 de fevereiro, em São Paulo, Otto aparentou espontaneidade desde o primeiro momento.

O ambiente do Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros, poderia sugerir que este era um show para se assistir sentado, mas o público já recebeu o cantor em pé desde “Crua”, primeira música do show. Embora ovacionado com reverência, Otto não age como uma vítima da grandiosidade de sua própria obra. Não tem caetanismos. Parece desencanado e espontâneo quando vira um copo de água sobre sua cabeça ou rebola curtindo seu próprio som.

O show teve como objetivo divulgar a edição em vinil do inquestionável álbum Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos (2009). O trabalho foi interpretado do começo ao fim, e é interessante observar a execução de um disco tão denso oito anos após o seu lançamento. Otto parece cantar com serenidade, mais preocupado em dançar e correr de um lado para o outro do palco do que em vomitar sua alma. Até porque, não precisa de muito para isso. Otto é pura alma.

Embora ouvir o álbum Certa Manhã... ao vivo seja uma experiência maravilhosa, a diversão mora, em boa parte, nas espontaneidades da alma de Otto. Por exemplo, na gratidão expressa inúmeras vezes pela plateia lotada. Na maneira como chama ao palco Julia Valiengo, da Trupe Chá de Boldo, para acompanhá-lo: “Me ajuda, Julia! Me ajuda!”. Quando relembra suas próprias letras, anotadas sem cerimônia em um suporte de partituras. Ou quando aproveita o intervalo entre as canções para comentar: “Esta semana eu vi dois filmes: ‘La La Land’ e ‘Eu, Daniel Blake’. Um para esquecer a vida e outro para ver como é a vida" – o comentário, sem uma conexão obrigatória com o momento, atesta que a espontaneidade impera.

Após o repertório do disco lançado em vinil, Otto e a banda Jambroband – formada por Marco Axé e Malê (percussão), Junior Boca e Guri Assis Brasil (guitarras), Bactéria (teclados), Hugo Carranca (bateria) e Meno del Picchia (baixo) – desfilaram sucessos como "Ciranda de Maluco" e “Cuba”. E terminaram com um justo tributo a Chico Science & Nação Zumbi, com "Da Lama Ao Caos" e “A Praieira”, não sem antes entoarem um pot-pourri de cantigas do candomblé. Talvez não saia com a perfeição de Lady Gaga, mas exala aquela naturalidade que traz paz para o coração.

Fotos: Laís Aranha (www.laisaranha.com).


Data da publicação: 13/02/2017 - 18:10
Por: João Vicente Seno Ozawa