Quando o disco ao vivo não é bem ao vivo



Quando descobri, fiquei estarrecido. A maioria dos Dvd's, ou melhor, vídeos de Youtube, das suas bandas preferidas tocando ao vivo, na verdade, de ao vivo tem pouco. Como é que é? Calma, eu explico.

Quando o Red Hot Chili Peppers tocou no Super Bowl em 2014, as pessoas foram à loucura quando revelou-se que a performance se tratava de um "playback". Isso é, a banda fazia uma mímica ali no palco, não tocavam seus instrumentos. Foi um escândalo, principalmente por que a banda é tida pelo público e pela crítica como uma das mais autênticas bandas de rock de sua geração. A razão dada foi a de que fazer playback facilita a produção. Conversa fiada quando se lembra que o Super Bowl se trata de um dos eventos mais lucrativos dos esportes internacionais. Se a produção do Super Bowl não consegue fazer, quem conseguiria? Se há alguma conclusão para tirar disso tudo é a seguinte: fazer bonito ao vivo, mas ao vivo mesmo, é difícil. Não só para os músicos, mas para a produção também (os engenheiros de som, os roadies, os diretores etc.)



Um dos discos ao vivo mais aclamados do mundo é The Last Waltz, da banda canadense The Band. Martin Scorcese filmou o show em 1976, o último da banda, no qual convidaram outros artistas, como Bob Dylan, Eric Clapton, Neil Young, Joni Mitchell e Muddy Waters para participar. O disco e o filme foram alterados drasticamente no estúdio, em pós-produção, pelo guitarista da banda, Robbie Robertson. Regravaram solos inteiros, de guitarra, de saxophone, de tudo... E é ótimo, não tem como falar muito mal. Mas, se você tem curiosidade, hoje em dia se tem na internet a gravação original do dia, sem alterações. Eu por exemplo, musicófilo como sou, gosto mais do jeito que foi mesmo, com suas imperfeições e tudo.



A imperfeição na música é uma forma de criação. No jazz isso é talvez mais aparente do que em qualquer outro estilo musical. Quando eu digo imperfeição, que fique muito claro que não é o mesmo que dizer que está errado. Um disco de jazz ao vivo, de um artista como John Coltrane, Thelonious Monk ou Charles Mingus, jamais pode ser alterado. Isso é, jamais as notas que eles tocaram podem ser alteradas por engenheiros em um estúdio. Quem somos nós para dizer que Thelonious Monk "errou", ali ou aqui? Toda a ideia do improviso no jazz é exatamente de que se trata de uma expressão daquele momento. São exatamente essas "imperfeições" que dão à música a sua vivacidade. Como disse Anelis Assumpção, quando ela passou pelo Estúdio Showlivre, "o ao vivo é vivo".



O rock n´roll já compartilhou mais desse espírito do que hoje. Bandas como Cream, Led Zeppelin, The Who, Jimi Hendrix Experience e tantas outras, tomaram essa ideia do jazz. Nos seus shows, o improviso não era só de se esperar, era toda a razão para se ir ver o show. Os fãs não cansavam de ir ver sua banda favorita, "o que será que o Jimmy Page vai fazer dessa vez?". Mas sim, todas essas bandas também já fizeram disco ao vivo cheio de pós-produção. O Led Zeppelin, por exemplo, lançou um filme no qual supostamente eles tocam no Madison Square Garden. Algumas das imagens eram realmente do show deles no lugar. Outras, porém, se tratavam de imagens em estúdio nas quais os artistas usavam as mesmas roupas. A banda fingiu tocar ao vivo, descaradamente, até mesmo em músicas inteiras. Mais uma vez eu repito, não é o fim do mundo, muito pelo contrário, o filme é legal. É apenas engraçado pensar no fã de rock que desconhece esses fatos e que esnoba a Britney Spears por fazer basicamente a mesma coisa.

No Estúdio Showlivre, citando a Anelis mais uma vez, o ao vivo é de fato vivo. Confira abaixo a apresentação da cantora por aqui, e veja como é bonito quando uma banda acerta de primeira.



Data da publicação: 29/06/2017 - 16:52
Por: Johnny Carneiro