O fantasma inspiratório do Pink Floyd



Ser um roqueiro famoso pode parecer uma maravilha, uma vida de hedonismo inconsequente, no qual se enche os bolsos fazendo o que mais se ama. Raramente se vê uma foto de Paul McCartney, por exemplo, com cara de deprimido. Os excessos da vida no rock são algo bastante romântico, principalmente para a molecada que acaba de pegar nos seus primeiros instrumentos. Imagina-se uma vida boa, com direito a bebida, drogas, aventura e boas companhias. Há verdades aí, é inegável. Mas como tudo que é bom nessa vida, também há seu preço.

Uma das vitimas mais famosas da vida de popstar foi o fundador do Pink Floyd, o inglês Syd Barrett. Foi quem fundou a banda, hoje conhecida por grandes discos como The Wall, Dark Side of The Moon e Animals. Era ele quem liderava o grupo em seu início, tomando a rédea como guitarrista, cantor e principal compositor. No primeiro disco da banda, Piper at the Gates of Dawn, Syd assina todas as músicas.



Embora fosse o final dos anos sessenta, época em que todo mundo estava experimentando com drogas, a história que contam é de que Syd extrapolava. Tomava LSD sem pudor e, mais que isso, misturava com um monte de coisa que nem mesmo ele sabia o que era. Eu repito, não era só ele quem fazia isso, mas com ele a coisa desandou.



O problema de Barrett se intensificou, até que chegou ao ponto em que ele era incapaz de tocar ao vivo. Os outros membros da banda contam como ele subia ao palco e ficava olhando para o espaço, como um zumbi. Não tocava as músicas e sequer parecia saber onde estava. Eventualmente a banda teve que pegar David Gilmour para substituir o seu membro problemático. No segundo disco do Floyd, há apenas uma música de Barrett, chamada "Jug Band Blues". Música tida como um "adeus" do próprio cantor para a banda que ele havia formado. A letra (tradução minha) diz o seguinte,

"É bastante admirável da parte de vocês em me considerar como alguém que está aqui,
E eu sou muito grato por vocês deixarem claro que eu não estou aqui".


Barrett saiu do grupo no final de 1968 mas sua influência continua a ser sentida. Pode se dizer que o cantor e sua trágica saída do grupo perduraram sobre todos os subsequentes projetos do Pink Floyd como uma espécie de fantasma. Mesmo com o músico morrendo só em 2006. Abaixo, o showlivre.com cita alguns exemplos de como o "fantasma inspiratório" de Syd continuou influenciando a trajetória da banda.



Brain Damage

A primeira aparição do fantasma está na penúltima música do disco Dark Side of the Moon, chamada "Brain Damage". É dessa música que saiu o nome do disco. Traduzindo fica "dano cerebral". A letra fala do amigo de Waters, que ele viu se perder no oblívio. A letra diz (tradução minha):

O lunático está na minha sala
Os lunáticos estão na minha sala
O papel do jornal segura suas caras dobradas no chão
E todo dia o jornaleiro traz mais


No caso, Rogers, quando diz "papel", se refere aos papeis de LSD que seu amigo tomava. Realmente era isso, Syd tinha uma dosagem diária da droga. Como se a letra não fosse o bastante, as risadas no fundo da música invocam, de maneira arrepiante, a loucura humana.



Wish you were here

Mais uma vez, até mesmo o nome do álbum é uma referencia ao Syd, Wish You Were Here. Há duas músicas escritas especialmente e especificamente para o fundador do grupo. A mensagem de "Wish You Were Here" é muito simples, "Queria que estivesse aqui" (tradução minha). É a mais conhecida de todas as músicas da banda, um testamento da influência duradoura que o cantor teve nos seus amigos compositores.
"Shine On You Crazy Diamond", música que ocupa a maioria do disco, também é obviamente um tributo. Waters canta:


"Continue brilhando, seu diamante louco"!


Essa letra também descreve o colapso mental de Syd. Nessa, porém, Waters coloca mais emoção na suas palavras. Nostálgico, as letras remetem ao passado, onde ambos, Waters e Syd, viviam vidas ingênuas como amigos. Ele coloca essas imagens do passado em justaposição com o presente trágico.



Durante a gravação do disco Wish You Were Here, Syd apareceu nos estúdios com a aparência bem diferente do menino jovem e bonito da primeira capa do Pink Floyd. Os seus amigos da banda sequer lhe reconheceram. Syd estava com a cabeça e as sobrancelhas completamente raspadas. Além disso, o músico tinha engordado muito. Tiveram que falar para o Roger Waters que aquele cara era o seu velho amigo, pois sozinho era impossível reconhecer.



The Wall

The Wall é outro disco onde o assunto é o excesso e a loucura no mundo pop. Nessa ópera rock, Roger Waters foi bastante autobiográfico em seu tom, porém, ainda há bastante Syd ali no meio. Além das músicas, o filme de The Wall, com o ator Bob Geldof, está cheio de referências visuais que Waters testemunhou de seu amigo em primeira mão. Como essa:



Fantasma ou não fantasma, louco ou não, o fato que permanece é que Syd Barrett fez músicas geniais. Apesar de seus vícios, depois que o inglês saiu da banda, ele gravou dois álbuns sozinhos, Madcap Laughs e Barrett. Inclusive, David Gilmour, seu substituto no Pink Floyd, foi quem produziu os dois discos. Uma tarefa difícil, pois Gilmour tinha que arcar com a personalidade errática do músico. Pairava o fantasma. Isso é, o fantasma da memória daquilo que Syd um dia foi. O menino mais carismático que Gilmour conhecia, aquele mesmo que simplesmente fundou a banda que lhe deu uma carreira.



Syd Barrett - Effervescing Elephant from Yoann Hervo on Vimeo.



Data da publicação: 06/07/2017 - 21:19
Por: Johnny Carneiro